Ex-diretor da OMC afirma que Pix não sofre ameaça real dos Estados Unidos
Roberto Azevêdo, ex-líder da OMC, minimiza temores sobre sistema de pagamentos em meio a tensões comerciais e eleitorais entre Brasil e EUA.

Em entrevista, Roberto Azevêdo, ex-diretor da OMC, avalia que o Pix não corre perigo real apesar das menções em relatórios comerciais dos EUA. O diplomata alerta que o foco deve ser a negociação contra tarifas que podem atingir 20% das exportações brasileiras.
O cenário das relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos atravessa um momento de tensão diplomática e intensa exploração política doméstica. Recentemente, o governo norte-americano sinalizou a possibilidade de retomar a imposição de tarifas sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, o que poderia impactar até 20% do volume total de exportações para o país. Em meio a esse turbilhão, o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, tornou-se um dos centros do debate. No entanto, Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) entre 2013 e 2020, afirmou em entrevista recente que a ferramenta brasileira não corre riscos reais de ser desativada ou sofrer sanções diretas por parte dos americanos.
A polêmica ganhou contornos eleitorais com a troca de acusações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Enquanto o governo atual sugere que a oposição estaria agindo contra os interesses nacionais em solo estrangeiro, críticos da gestão petista apontam uma suposta inabilidade diplomática para evitar as barreiras tarifárias. O Pix entrou no meio desse fogo cruzado após um relatório do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) classificar o mecanismo como um "campeão nacional", sugerindo que sua estrutura de funcionamento poderia representar um desafio à livre concorrência para empresas dos EUA que operam no setor de meios de pagamento, como as bandeiras de cartões de crédito.
Para Roberto Azevêdo, o alarde feito em torno do Pix no debate público brasileiro é desmedido. O diplomata esclarece que a principal objeção técnica dos Estados Unidos não é ao sistema em si, que é reconhecido por sua eficiência, mas sim ao modelo de governança. O questionamento reside no fato de o Banco Central do Brasil acumular as funções de operador do sistema e de órgão regulador do mercado. Na visão norte-americana, essa dualidade cria uma vantagem competitiva estatal frente a empresas privadas. Contudo, Azevêdo ressalta que essa é uma questão administrativa que pode ou não ser negociada pelo governo brasileiro, sem que isso signifique o fim da gratuidade ou do funcionamento da ferramenta para a população.
Além da questão tecnológica e financeira, o retorno das tarifas de importação preocupa pelo impacto macroeconômico. Após uma decisão da Suprema Corte dos EUA ter derrubado taxas anteriormente, a nova proposta prevê uma taxação de 25% sobre produtos brasileiros de alto valor agregado. Segundo o ex-diretor da OMC, essa medida é parte de uma estratégia de reindustrialização promovida por Donald Trump, que visa atrair investimentos para o território norte-americano e proteger sua produção interna. Diferente das exportações para a China, compostas majoritariamente por commodities, as vendas para os EUA envolvem máquinas, equipamentos e produtos semimanufaturados, cuja perda de competitividade pode afetar diretamente empregos e cadeias produtivas no Brasil.
Diante deste cenário, o especialista recomenda cautela e pragmatismo nas negociações. Azevêdo enfatiza que o Brasil não possui o mesmo "poder de fogo" que a China para retaliar comercialmente os Estados Unidos sem sofrer danos ainda maiores. O caminho sugerido é o da diplomacia clássica: buscar diálogos assertivos e técnicos que consigam reduzir o impacto social e econômico das medidas. Ele alerta que transformar um problema comercial complexo em um campo de batalha eleitoral pode prejudicar as chances de um acordo benéfico. No momento, o sistema de solução de controvérsias da OMC permanece inoperante, o que retira do Brasil a possibilidade de uma resolução jurídica rápida no âmbito internacional, tornando a negociação direta bilateral a única via viável para o Itamaraty.






