Drink argentino vira febre no RS impulsionado por hit musical e lota bailes
Música do Quarteto Fronteira vira fenômeno cultural e faz vendas de destilado argentino crescerem 55% na fronteira com o Uruguai.

O sucesso musical "Fernet com Coca", do grupo Quarteto Fronteira, causou um salto de 55% nas vendas da bebida na fronteira. A tradicional combinação argentina tornou-se febre em CTGs e bailes gaúchos, conquistando novos públicos e transformando o mercado de bebidas no Rio Grande do Sul.
Uma fusão cultural e gastronômica está redesenhando os hábitos de consumo no Sul do Brasil. O Fernet com Coca-Cola, mistura emblemática da coquetelaria argentina, experimenta uma ascensão meteórica de popularidade no Rio Grande do Sul, impulsionada por um fenômeno musical que ultrapassou as fronteiras físicas do Pampa. O sucesso da canção "Fernet com Coca", interpretada pelo grupo Quarteto Fronteira, de Bagé, tornou-se o principal catalisador para que a bebida saísse do nicho das cidades fronteiriças e conquistasse espaço em Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), rodeios e casas de baile em todo o estado e até em regiões vizinhas.
Historicamente, o Fernet — um amaro de origem italiana composto por diversas ervas, raízes e especiarias — consolidou-se como um patrimônio cultural da Argentina ao longo das últimas décadas, especialmente na província de Córdoba. No Uruguai, a bebida também mantém uma presença sólida. No entanto, o paladar brasileiro, tradicionalmente mais voltado à cerveja e ao churrasco, apresentava certa resistência ao amargor característico do destilado. A virada de chave ocorreu com o lançamento da faixa musical em setembro de 2025, que utilizou o ritmo da cumbia — sonoridade amplamente apreciada na América do Sul e Central — para criar uma conexão imediata entre a melodia dançante e a experiência de degustar o drink.
A força do movimento ganhou proporções internacionais quando o astro uruguaio Lucas Sugo, figura de enorme prestígio com milhões de seguidores, regravou a música e lançou um videoclipe em conjunto com os artistas gaúchos. Esse intercâmbio cultural não apenas validou a obra musical, mas gerou um reflexo direto no comércio. Dados do setor varejista na fronteira confirmam a "explosão" do consumo: em Rivera, no Uruguai, free shops registraram um salto impressionante de 55% no volume de garrafas de Fernet vendidas entre 2024 e o início de 2026. Gestores desses estabelecimentos já planejam estoques reforçados, prevendo que a combinação estará entre os cinco itens mais vendidos da próxima temporada de verão, superando bebidas historicamente consolidadas.
Para além dos números comerciais, a mudança de paradigma é observada na prática dentro dos eventos tradicionalistas. Patrões de CTGs e organizadores de bailes relatam que, antes do hit, o Fernet era desconhecido por boa parte do público brasileiro. Atualmente, a demanda é tamanha que freezers exclusivos para a bebida tornaram-se itens obrigatórios em festas regionais. O fenômeno chegou a capitais como Curitiba, onde tradicionais salões de dança gaúcha introduziram a mistura em seus cardápios para atender a pedidos gerados pela influência da música. Artistas do gênero destacam que a temática da letra casou perfeitamente com a renovação de público nos bailes, atraindo uma geração jovem interessada em novas experiências sensoriais.
O cenário projeta uma consolidação do Fernet com Coca-Cola como um elemento fixo da identidade boêmia gaúcha, evidenciando como a música pode atuar como um agente de soft power cultural e econômico. O próximo passo deste movimento deve ser a expansão da tendência para os grandes centros urbanos do Sudeste, seguindo o rastro de outros sucessos regionais que se nacionalizaram. Se por décadas o chimarrão foi o símbolo absoluto da hospitalidade do Sul, agora ele divide, em horários de lazer e celebração, o protagonismo com o copo de Fernet, redesenhando o mapa de sabores da fronteira e reafirmando a integração indissociável entre brasileiros, argentinos e uruguaios no pampa sul-americano.





