Crise no Xingu: os impactos ambientais e sociais 10 anos após Belo Monte
Desvio de caudal para hidrelétrica reduz fluxo do rio em 80%, devastando ecossistemas e isolando comunidades tradicionais no Pará.
Dez anos após Belo Monte, desvio de 80% da água do Rio Xingu provoca seca severa, deformações em peixes e ameaça a sobrevivência de comunidades ribeirinhas no Pará.
A região da Volta Grande do Xingu, no Pará, enfrenta um cenário de devastação ambiental uma década após o início das operações da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O desvio de cerca de 80% do volume de água para o funcionamento das turbinas alterou drasticamente o ciclo hidrológico de um trecho de 100 quilômetros. O recuo do rio secou áreas de igapó e comprometeu as zonas de reprodução de diversas espécies. Segundo pesquisadores e comunidades locais, a ausência de cheias regulares resultou na morte de milhares de ovas e no surgimento de peixes com deformações ósseas causadas pela desnutrição.
Os impactos sociais são profundos para os povos indígenas e ribeirinhos que dependem do ecossistema para subsistência. A escassez de peixes e a contaminação da água tornaram a vida na região um desafio logístico e sanitário. Relatos de moradores indicam que poços artesianos secaram, forçando famílias a buscarem água no leito do rio, que muitas vezes provoca reações na pele. Atualmente, parte da população local depende do fornecimento emergencial de água potável por caminhões-pipa para realizar atividades básicas do cotidiano.
No âmbito jurídico e administrativo, a renovação da licença de operação de Belo Monte é centro de um impasse. O Ibama cobra da concessionária Norte Energia um novo plano de vazão que garanta a viabilidade ecológica do rio, alegando que os prazos para apresentação de propostas já venceram. Enquanto a empresa defende que sua operação respeita as normas e é essencial para a segurança energética do Brasil, especialistas alertam que o modelo atual sacrifica a vida na Amazônia em favor da geração de eletricidade.
Para agravar o quadro, a região está sob a ameaça de um novo empreendimento: a instalação de uma gigante mina de ouro pela empresa Belo Sun. O projeto prevê o uso de substâncias químicas perigosas e a construção de uma barragem de rejeitos de grandes proporções próxima ao Xingu. O Ministério Público Federal contesta o licenciamento da mineradora, apontando falhas na consulta às comunidades tradicionais afetadas, que temem que o novo projeto represente o fim definitivo de seu modo de vida e da herança ambiental para gerações futuras.
