Casarão da família Buarque de Holanda em SP recebe exposição com acervo raro da Unicamp
Residência no Pacaembu abre as portas para mostrar relíquias, fotos raras e detalhes da vigilância sofrida pela família durante o regime militar.

O histórico casarão de Sérgio Buarque de Holanda, no Pacaembu, recebe exposição inédita com o acervo raro da Unicamp. A mostra revela a intimidade do historiador, a resistência da família durante a ditadura militar e o efervescente ambiente cultural onde cresceu o cantor Chico Buarque.
O emblemático casarão de estilo normando localizado na Rua Buri, número 35, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, abriu suas portas para uma imersão profunda na história intelectual e política do Brasil. A residência, que serviu de lar para o historiador Sérgio Buarque de Holanda e sua família entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1980, sedia agora a mostra "A casa do historiador: Sérgio Buarque na Rua Buri". O evento marca o retorno temporário de relíquias e documentos pessoais do autor de "Raízes do Brasil" ao local onde foram concebidos, graças a uma parceria entre a Unicamp, o Arquivo Público do Estado e a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A iniciativa busca não apenas homenagear o legado do acadêmico, mas revitalizar o espaço como um centro de memória e educação para o público em geral.
A trajetória desse acervo é, por si só, uma narrativa fascinante sobre a preservação da memória nacional. Logo após o falecimento de Sérgio Buarque de Holanda, em 1982, a Unicamp adquiriu sua vasta biblioteca e arquivos pessoais sob circunstâncias curiosas, envolvendo até mesmo um bilhete escrito em um guardanapo por uma bibliotecária visionária. Hoje, mais de quatro décadas depois, a Universidade Estadual de Campinas guarda aproximadamente 8,5 mil livros e milhares de documentos que pertenceram ao historiador. Para a exposição no Pacaembu, foram selecionadas obras que contêm anotações de próprio punho, revelando o processo criativo e crítico do autor. Um dos destaques é o livro "Parceiros do Rio Bonito", com uma dedicatória afetuosa de Antônio Cândido, evidenciando a profunda simbiose intelectual entre os dois maiores pensadores sociais do país, cujos acervos permanecem frente a frente na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho, em Campinas.
Além do rigor acadêmico, o casarão da Rua Buri foi o epicentro de uma efervescência cultural sem precedentes na capital paulista. Ali cresceram Chico Buarque, Ana de Holanda e Miúcha, figuras centrais da Música Popular Brasileira que, desde a juventude, conviviam com personalidades como Vinicius de Moraes, Tarsila do Amaral e Tom Jobim. A exposição resgata essa atmosfera familiar e artística por meio de fotografias raras e "memorabília" que retornaram para as prateleiras e varandas originais da casa. Curadores e pesquisadores destacam que o local não era apenas uma residência, mas um ponto de encontro onde a arte e a política se fundiam, servindo inclusive como refúgio de resistência intelectual durante os anos de repressão. Maria Amélia Buarque de Holanda, esposa de Sérgio, é lembrada como peça fundamental nessa engrenagem, atuando como colaboradora intelectual ativa e guardiã incansável do material produzido pelo marido.
O contexto de resistência política é um dos pilares mais densos da mostra. Durante a ditadura militar, o casarão esteve sob estrita vigilância dos órgãos de repressão. Documentos do extinto Dops (Departamento de Ordem Política e Social) confirmam que a rotina da família era monitorada de perto, com agentes posicionados na porta da residência. A suspeita de grampos telefônicos forçou os Buarque de Holanda a criar sistemas de códigos domésticos, onde comunicações triviais sobre aniversários ou eventos sociais serviam de alerta para possíveis ações militares. Esse clima de tensão, contudo, não silenciou o historiador, que manteve sua postura crítica e sua dedicação em contar a história brasileira sob a perspectiva dos marginalizados, um tema que continua atual e necessário para a compreensão das desigualdades sociais no Brasil contemporâneo.
Para o setor educacional e cultural, a abertura dessa exposição representa um marco no direito à memória e à literatura. O casarão é tombado pelo Condephaat, o que garante a preservação de sua estrutura física, mas eventos como este devolvem a "alma" ao patrimônio material. A expectativa é que a casa se torne um polo de visitação para professores e estudantes da rede municipal, conectando o currículo escolar à experiência direta com a história viva. Enquanto o casarão no Pacaembu oferece essa experiência sensorial, a Unicamp segue com o trabalho técnico de digitalização do acervo completo. Atualmente, cerca de 2,7 mil itens já podem ser consultados online, com a promessa de que todo o fundo documental esteja disponível em alta resolução até o fim deste ano, democratizando o acesso ao pensamento de um dos homens que mais se dedicou a entender o que significa ser brasileiro.






