Carta para quem aprendeu a cintilar em silêncio
Que eu me reconheça a cada amanhecer. Que eu viva o novo, e se não houver novo, que eu o invente. Que eu silencie, sim ? mas nunca me abafe. Que eu seja sol para quem é jardim, para quem floresce, para quem se importa.

Hoje escrevo não para ser ouvido, mas para me reconhecer. Escrevo como quem se olha no espelho e, em vez de buscar aprovação, busca verdade. Não é que o brilho tenha se apagado — ele apenas deixou de ser exibido em vitrines rasas, onde não há olhos capazes de enxergá-lo. O brilho verdadeiro nunca se apaga. Ele repousa, aguarda, e se revela apenas para quem também carrega luz dentro de si.
Aprendi que amar não é insistir. Amar é respeitar o espaço do outro, é não empurrar presença, voz ou convicções goela abaixo. Amar é saber sair de cena quando todas as cadeiras já estão ocupadas, sem tentar caber onde não há lugar. É compreender que a ausência também pode ser cuidado, que o silêncio pode ser gesto, que a distância pode ser respeito.
A maturidade me ensinou a ler sinais que não vêm com palavras. O sorriso contido que revela mais do que uma frase inteira. O toque que hesita, carregado de dúvidas. O olhar que se desvia, tentando esconder verdades. Aprendi a interpretar a linguagem das sobrancelhas sobressaltadas, o silêncio entre respirações, a ausência que fala mais alto do que qualquer presença. E nesse aprendizado, percebi que a vida é feita de nuances, e que o amor verdadeiro é aquele que sabe escutar até o que não é dito.
Deixei de dar ibope ao que não me representa. Desliguei os holofotes das superproduções que já não fazem sentido. E nesse gesto de desapego, abri espaço no coração — espaço para sentimentos que cabem, que florescem, que respiram sem sufocar. Abri janelas. Deixei o ar entrar. A brisa da manhã trouxe perfume novo, e as varandas do meu ser voltaram a florir.
Meu coração, tantas vezes incompreendido, segue batendo na frequência do amor, da amizade, da verdade. Ele não se molda às expectativas alheias, não se curva às pressões externas. Ele pulsa no ritmo daquilo que é genuíno. E é nesse compasso que encontro paz.
Que eu me reconheça a cada amanhecer. Que eu viva o novo — e se não houver novo, que eu o invente. Que eu silencie, sim, mas nunca me abafe. Que eu seja sol para quem é jardim, para quem floresce, para quem se importa. Que eu seja presença que não pesa, mas que ilumina.
E, no fim, que eu possa dizer: eu fui inteiro. Eu não me escondi. Eu não economizei o que havia de mais bonito em mim. Porque viver é isso: ser luz, mesmo quando o mundo insiste em sombras.
Antonio Marcos de Souza
Comentários
(0)Carregando comentários...






