Brasil falha em atingir meta de vacinação contra gripe pelo quinto ano seguido
Apenas 38% do grupo prioritário foi imunizado; baixa adesão coincide com o aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave em quase todo o país.

O Brasil encerrou o período oficial de vacinação contra a gripe com apenas 38% de cobertura no grupo prioritário. É o quinto ano seguido que o país falha em bater a meta, coincidindo com o aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave em quase todos os estados.
O encerramento oficial da Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza, ocorrido neste sábado, consolidou uma realidade preocupante para a saúde pública brasileira. Pelo quinto ano consecutivo, o país não conseguiu atingir a meta estipulada de imunização para os grupos prioritários. Os dados parciais revelam que a adesão em todo o território nacional atingiu apenas 38% do público-alvo, uma marca significativamente distante dos 90% preconizados pelo Ministério da Saúde e por órgãos internacionais para garantir a chamada imunidade de rebanho e o controle efetivo da propagação do vírus.
A crise na cobertura vacinal reflete uma mudança de comportamento da população nos últimos anos. Historicamente, o Brasil era referência mundial em campanhas de imunização em massa, alcançando índices elevados com facilidade. No entanto, desde 2020, uma combinação de fatores — como o crescimento de movimentos antivacina, a disseminação de notícias falsas e uma falsa sensação de segurança em relação à gravidade da gripe — tem minado os esforços das autoridades sanitárias. Em cidades como Belo Horizonte, postos de saúde funcionaram em plantão especial para tentar atrair idosos, gestantes e crianças de até seis anos, mas o movimento registrado ficou aquém do esperado para um dia de encerramento.
Este cenário de baixa procura ocorre em um momento crítico, caracterizado pelo aumento expressivo nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). De acordo com o último boletim InfoGripe, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Brasil apresenta uma tendência de crescimento nas internações por complicações respiratórias em quase todas as unidades da federação. Com exceção de Rondônia, todos os estados brasileiros encontram-se atualmente em níveis que variam de alerta a alto risco. A ausência de proteção vacinal adequada sobrecarrega o sistema hospitalar, uma vez que pacientes não imunizados apresentam quadros clínicos mais severos quando infectados pelos vírus circulantes, como o H1N1 e o H3N2.
Especialistas em infectologia, como Carlos Starling, alertam que a influenza não deve ser encarada apenas como um resfriado comum. A doença tem potencial para evoluir rapidamente para quadros de pneumonia e falência respiratória, especialmente em pessoas com comorbidades ou idades extremas. O risco de óbito é real e estatisticamente superior entre aqueles que negligenciam a dose anual. A vacina oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é trivalente, protegendo contra as cepas que mais circulam no Hemisfério Sul, e é considerada a ferramenta mais eficaz para evitar hospitalizações desnecessárias e reduzir a mortalidade sazonal.
Embora a campanha oficial tenha chegado ao fim no calendário, o Ministério da Saúde informou que as doses remanescentes continuarão disponíveis nas salas de vacina de todo o país. A recomendação é que a população não vacinada procure as unidades básicas de saúde o quanto antes, uma vez que o organismo leva cerca de 15 dias após a aplicação para produzir os anticorpos necessários. Para o leitor brasileiro, o desafio vai além do cuidado individual: a baixa cobertura vacinal expõe toda a sociedade a novos surtos e pressiona os gastos públicos com tratamentos intensivos. A esperança das autoridades é que, mesmo fora do período de campanha, a conscientização sobre os perigos da SRAG impulsione a procura tardia pelos imunizantes.





