1998 - When You Believe
Há quase trinta anos, estive em um abismo


Antonio Marcos de Souza
7 de julho de 2026.
Hoje acordei estranho. Confesso que não sabia explicar exatamente o que estava sentindo. Tudo parecia normal. O céu estava no mesmo lugar, o café seguia seu ritual, a manhã acontecia como tantas outras. Mas algo dentro de mim estava diferente. Eu não estava triste. Não estava feliz. Não estava vazio. Era apenas uma sensação que eu não conseguia nomear. Em algum momento, a tristeza me convidou para caminhar com ela. Por alguns instantes, quase aceitei. Mas antes de entrar nela, entrei em mim. E foi nesse encontro silencioso que compreendi algo: Nem eu, nem a minha fé, somos inabaláveis. Durante muito tempo imaginei que a fé fosse não sentir medo. Hoje compreendo que ela também existe quando as mãos tremem, quando as respostas não chegam e, ainda assim, escolhemos continuar. Ao ouvir When You Believe, uma frase ganhou um novo significado: Apenas acredite. Antes eu escutava: Acredite. Hoje também escuto: Continue. Porque acreditar não é esperar que tudo aconteça como desejamos. É caminhar mesmo sem enxergar todo o caminho. Essa canção chegou até mim em 1998. Eu tinha apenas 19 anos. Naquela época, estive em um abismo. Conheci o medo, a solidão e a sensação de insuficiência. Hoje consigo olhar para aquele momento com carinho. Porque aquele jovem ainda não sabia, mas enquanto tentava sobreviver, construía uma ponte. Cada queda, cada recomeço e cada escolha de continuar faziam parte daquela construção silenciosa. Eu acredito em milagres. Mas não como recompensas. Os milagres que reconheço são mais sutis. Eles chegam como o vento. Como um sorriso. Como uma lágrima. Como uma paz que não precisa explicar sua chegada. Talvez os maiores milagres não sejam aqueles que mudam imediatamente a realidade. Talvez sejam aqueles que transformam a forma como atravessamos ela. Hoje percebo que pontes também precisam de cuidado. E talvez esse encontro comigo mesmo tenha sido uma manutenção silenciosa. Minha essência continua sendo uma bailarina. Minha consciência, um jardineiro. Uma dança entre leveza e presença. Talvez por isso eu encontre tanta beleza na natureza. Nenhuma flor tenta ser outra. Nenhuma borboleta disputa suas cores. A natureza não compete. Ela floresce. E talvez nós também possamos aprender isso. Cada um carrega seus próprios abismos, suas próprias sementes e suas próprias pontes. Muitas vezes não percebemos o que estamos construindo enquanto atravessamos os dias difíceis. Mas algo dentro de nós continua trabalhando silenciosamente. Uma fé que não precisa ser vista. Uma semente esperando o momento certo para florescer. Talvez essa seja a beleza da caminhada. Nós não construímos apenas pontes para atravessar nossos próprios abismos. Às vezes, construímos caminhos que também podem inspirar outras travessias. Porque quando uma semente floresce, ela também oferece novas sementes ao mundo. E talvez seja assim que uma floresta começa. Hoje termino este dia diferente de como comecei. A estranheza não era um obstáculo. Era um convite. Ela me trouxe de volta para mim. E talvez essa seja a mensagem que When You Believe deixou em meu coração: A fé não precisa ser barulhenta. Ela apenas permanece. Silenciosamente. Construindo pontes enquanto seguimos caminhando. Talvez a sua ponte também esteja sendo construída agora. Mesmo que você ainda não consiga enxergá-la. Respeite o tempo das suas sementes. Cuide das suas raízes. E quando olhar para trás, talvez descubra que muitos caminhos que pareciam apenas desafios eram, na verdade, a própria construção da sua travessia.
Das redes sociais "Entre Mundos"
Antonio Marcos de Souza
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