Hoje, ao pegar uma das tantas fotos da infância, fui transportado para uma época desacelerada, em que os dias pareciam ter quarenta e oito horas. Tudo era mais demorado, mais saboroso, no ritmo das coisas boas: risadas sem filtro, sorrisos frouxos, sem medo de serem ignorados ou repreendidos, porque eram verdadeiros, porque éramos nós mesmos.
Fotos reveladas em papel guardam um charme que a velocidade da internet e dos celulares jamais terão. Ao olhar uma delas, meus olhos marejaram e chorei baixinho. Vieram à mente tantos filmes, capítulos inacabados, finais que nunca se concluíram. Lembrei de um amigo da infância, daquela lealdade e cumplicidade raras de se encontrar hoje. Esse capítulo não existe mais, mas permanece vivo na memória.
A triste realidade é que, ao longo da vida, fomos podados, censurados, amordaçados. Nossa personalidade linda, nossa inocência, coerência e charme foram sendo suprimidos, trancados em uma caixa nos cômodos mais apertados da alma. Permitimos que outros tomassem as rédeas dos nossos sonhos, desejos e alegrias. Ficamos pálidos, acreditando que era o melhor caminho, esquecendo o perfume natural da nossa pele, a fragrância única que nos definia.
Por anos, por décadas, deixamos essa caixa esquecida, empoeirada, abarrotada de nós mesmos. Até que, talvez por descuido da covardia, encontramos a chave e aprendemos a girar a fechadura. Ao abri-la, descobrimos nossa maior riqueza: a essência intacta, o sorriso mais bonito, a alegria mais genuína. Sem vergonha, sem receio, sem encabulamento.
Aquela criança ainda vive. O jovem apaixonante ainda pulsa. O homem pode se refazer daquilo que sempre foi, mas que desaprendeu ao longo do tempo. Porque, apesar das convenções que nos condicionaram, a essência nunca envelheceu. Essa criança ainda vive! "Nossa essência nunca envelheceu, ela espera ser libertada"
Antonio Marcos de Souza
