Economia

Presidente da Bolívia corta o próprio salário pela metade para frear crise política e social

Medida de austeridade busca conter fúria popular em meio ao desabastecimento e pressão de Evo Morales por novas eleições.

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Redação 360 Notícia
25 de maio de 2026 às 16:173 min
Presidente da Bolívia corta o próprio salário pela metade para frear crise política e social
Foto: Reprodução
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Em meio à maior crise econômica dos últimos 40 anos e protestos que entram na quarta semana, o presidente boliviano Rodrigo Paz reduz seu salário e o de seus ministros pela metade. A medida de austeridade ocorre enquanto o país sofre com desabastecimento e inflação.

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, anunciou nesta segunda-feira (25) uma medida drástica na tentativa de conter a crescente insatisfação popular que paralisou o país nas últimas semanas. Durante uma solenidade oficial realizada na cidade de Sucre, o mandatário confirmou a redução de 50% em seu próprio salário, estendendo o corte também a todo o seu gabinete de ministros. O gesto político busca projetar uma imagem de austeridade e "compromisso com a nação", em um momento em que o governo central enfrenta uma resistência ferrenha das ruas e uma economia que beira o colapso estrutural.

A decisão ocorre em meio à entrada da Bolívia na quarta semana consecutiva de intensas mobilizações sociais e bloqueios de estradas. O país atravessa sua crise econômica mais profunda em quatro décadas, um fenômeno alimentado principalmente pela escassez severa de reservas em dólares. A falta de moeda estrangeira tem impedido a importação regular de bens essenciais e provocado uma desvalorização de fato, afetando o poder de compra da população e elevando a inflação anual para a casa dos 14%. O governo de Paz, que completou apenas seis meses de gestão, vê-se agora encurralado entre a necessidade de reformas fiscais impopulares e o desabastecimento generalizado de insumos básicos.

O cenário logístico boliviano é crítico, especialmente nos centros urbanos de La Paz, o coração administrativo, e El Alto. Com dezenas de rodovias obstruídas por manifestantes, o fluxo de mercadorias foi interrompido, gerando prateleiras vazias em supermercados e uma crise sanitária iminente. Hospitais já relatam a falta de medicamentos vitais, enquanto postos de combustíveis apresentam filas quilométricas ou encerram as atividades por falta de estoque. Para o cidadão comum, o custo de vida disparou em um curto intervalo, transformando o descontentamento político em uma luta diária pela sobrevivência, o que amplia a pressão sobre o Palácio Quemado por respostas imediatas.

No campo político, o embate se personifica na rivalidade entre o atual presidente e o ex-mandatário Evo Morales. Rodrigo Paz acusa Morales de orquestrar as paralisações como uma estratégia deliberada para "desestabilizar a ordem democrática" e forçar um retorno ao poder. Por outro lado, Morales, que governou o país entre 2006 e 2019 e atualmente reside em um contexto de disputa judicial, exige a renúncia de Paz e a convocação de eleições presidenciais em um prazo de 90 dias. A narrativa do governo boliviano já foi levada à Organização dos Estados Americanos (OEA), onde denunciou o que classifica como uma tentativa de golpe articulada por setores ligados ao ex-presidente, que enfrenta investigações por crimes de tráfico de menor.

Para o leitor brasileiro e para a estabilidade da América do Sul, a situação na Bolívia é motivo de alerta contínuo. A instabilidade no país vizinho tem potencial para afetar as exportações brasileiras e o fornecimento de recursos energéticos, além de gerar pressões migratórias nas fronteiras terrestres. O gesto de cortar o salário do alto escalão é visto por analistas internacionais como uma tentativa de "ganhar tempo" e desarmar parte do discurso das lideranças sociais, mas as raízes da crise — a falta de dólares e a disputa política interna — permanecem intactas. Os próximos dias serão decisivos para determinar se a via diplomática e a austeridade simbólica serão suficientes para desobstruir as vias do país ou se o cerco a La Paz levará a uma transição forçada de poder.

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