PF identifica 'aparelhos bomba' em nome de mortos usados por alvos da Operação Sem Refino
Investigação revela uso de linhas telefônicas em nome de falecidos por suspeitos de crimes fiscais e agentes públicos.

Investigação da PF revela que alvos da Operação Sem Refino, incluindo agentes públicos e políticos, utilizavam 'aparelhos bomba' em nome de mortos e técnicas de ocultação de dados para burlar o monitoramento das autoridades e ocultar crimes fiscais.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal na Operação Sem Refino revelaram um intrincado esquema de contrainteligência operado por suspeitos de crimes fiscais e agentes públicos. Após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de retirar o sigilo dos autos, vieram à tona detalhes sobre o uso de "aparelhos bomba" ou "bombinhas". Esses dispositivos móveis operavam com linhas telefônicas registradas fraudulentamente em nomes de pessoas já falecidas, uma estratégia desenhada especificamente para romper o fio da meada em interceptações telefônicas e blindar a identidade dos interlocutores em comunicações sensíveis.
O contexto dessa descoberta aponta para uma falha crítica de segurança interna, uma vez que a perícia técnica identificou que até mesmo membros da própria corporação faziam uso desses artifícios. Entre os casos documentados, destaca-se uma linha mantida por escrivães da Polícia Federal lotados no Rio de Janeiro. O número estava vinculado formalmente ao CPF de um homem que morreu em 2021 e que não possuía qualquer relação com as forças de segurança. A fraude foi desmascarada quando os investigadores cruzaram dados de acesso à rede interna da PF e constataram que um dos investigados utilizou suas credenciais funcionais através da conexão provida pelo "aparelho bomba", vinculando definitivamente o servidor ao dispositivo clandestino.
A Operação Sem Refino, que investiga um vultoso esquema de evasão fiscal e crimes tributários, coloca sob os holofotes figuras de destaque político e empresarial. Entre os principais alvos estão o empresário Ricardo Magro e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, além de Jonathas Assunção Salvador Nery de Castro. A investigação sugere que a rede de influência permitia não apenas a sonegação de impostos em larga escala, mas também a cooptação de agentes do Estado para garantir a impunidade e a continuidade das operações ilícitas. O uso de identidades de mortos para habilitar SIM cards é visto pela PF como um agravante que demonstra dolo e profissionalismo na ocultação de vestígios.
Além da telefonia irregular, os investigadores detalharam um "padrão de ocultação" sistemático que envolvia advogados e outros agentes públicos. O grupo evitava o compartilhamento de arquivos digitais diretos, preferindo fotografar telas de computadores ou documentos físicos para enviar via aplicativos de mensagens. Essa prática visa impedir a extração de metadados — informações como localização, data, hora e modelo do dispositivo original — que poderiam servir como prova pericial. Esse cuidado excessivo confirma, para a Polícia Federal, que os envolvidos tinham pleno conhecimento da ilegalidade de suas ações e agiam preventivamente contra possíveis investigações.
Com o avanço do inquérito e a análise do material apreendido, os próximos passos da Polícia Federal devem focar na identificação de outros terminais telefônicos que operam sob o mesmo sistema de "bombinhas". A quebra de sigilo determinada pelo STF permite que a investigação aprofunde a análise das mensagens trocadas, buscando evidenciar o fluxo financeiro do esquema de sonegação e a contrapartida oferecida aos agentes públicos que colaboravam com o grupo. O desdobramento do caso pode levar ao indiciamento por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, além dos crimes tributários que deram origem à operação.

