Pernambuco retoma monitoramento de tubarões com microchips após 11 anos de interrupção
Após 11 anos de hiato, investimento de R$ 1 milhão permitirá rastreamento de 60 animais para reforçar a segurança nas praias.

Pernambuco retoma o monitoramento de tubarões com tecnologia de microchips após 11 anos de paralisação. A medida visa mapear o comportamento dos animais e prevenir novos incidentes em praias populares como Boa Viagem e Piedade.
Após um hiato de mais de uma década, o estado de Pernambuco oficializou a retomada do monitoramento científico de tubarões em sua costa por meio do uso de microchips. O anúncio ocorre em um momento de extrema sensibilidade para a segurança pública e o turismo local, sucedendo incidentes graves de ataques ocorridos no início deste ano nas praias da Região Metropolitana do Recife. O projeto, que será conduzido por especialistas do Departamento de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), visa preencher uma lacuna de dados que perdura desde 2013, período em que o acompanhamento sistemático de animais marinhos de grande porte foi descontinuado.
A iniciativa, batizada de Projeto Ecotuba, surge como uma resposta estrutural à necessidade de compreender a dinâmica migratória e o comportamento das espécies mais incidentes em ataques, como o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata. A ausência de monitoramento por 11 anos deixou os órgãos de gestão ambiental sem informações precisas sobre como as mudanças climáticas, a degradação dos estuários e as correntes marítimas alteraram a presença desses animais na beira-mar pernambucana. Para o leitor brasileiro, especialmente o que frequenta o litoral nordestino, a medida representa um avanço na tentativa de conciliar o uso de áreas de lazer com a preservação da biodiversidade marinha, utilizando a tecnologia como principal aliada na mitigação de riscos.
Em termos práticos, a pesquisa contará com um aporte financeiro de R$ 1,052 milhão, destinado a custear dois anos de atividades. Embora o montante seja significativo, ele reflete uma realidade econômica distinta de dez anos atrás, quando o investimento anual girava em torno de R$ 1 milhão. Com um orçamento proporcionalmente menor, a equipe técnica precisou otimizar recursos para a instalação de 15 receptores acústicos ao longo de áreas estratégicas, como Boa Viagem e Piedade. O processo de marcação envolve uma técnica rápida, descrita pelos biólogos como uma "cirurgia de cinco minutos", na qual microchips acústicos e marcadores visuais plásticos são implantados nos tubarões para que sinalizem sua posição toda vez que passarem perto de um dos sensores submersos.
O coordenador do projeto, Paulo Oliveira, ressalta que o objetivo central não é apenas o rastreio, mas a fundamentação de políticas públicas de educação ambiental. Ao identificar padrões de horários, condições de maré e variações de temperatura que atraem os tubarões para mais perto da areia, o estado poderá emitir alertas mais precisos e educativos para banhistas e surfistas. A ciência busca responder se houve uma mudança sazonal de comportamento: se antes os animais se aproximavam mais no inverno, agora é necessário verificar se esse padrão se mantém ou se os tubarões estão passando mais tempo em regiões densamente povoadas devido à escassez de alimento ou alterações em seus habitats naturais.
Para o futuro imediato, a expectativa é que as primeiras expedições de captura e marcação comecem já em julho. Este novo ciclo de estudos é visto pela comunidade acadêmica e pelas autoridades de segurança como um passo vital para restaurar a confiança de quem frequenta o litoral de Pernambuco. A longo prazo, os dados coletados servirão para alimentar o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), permitindo que o manejo da crise saia do campo do improviso e baseie-se em evidências biológicas sólidas. A retomada do monitoramento recoloca o estado na vanguarda da pesquisa oceanográfica, focada em salvar vidas e proteger o ecossistema marinho simultaneamente.






