Pernambuco retoma monitoramento de tubarões após ataques graves no Recife
Após dois ataques graves em 48 horas, Estado reativa pesquisa científica paralisada há 11 anos para mapear riscos e revisar decretos na orla.

Após dois ataques graves que resultaram em amputações em menos de 48 horas, o Governo de Pernambuco reativa o monitoramento científico de tubarões após 11 anos. Pesquisadores usarão transmissores para mapear espécies e revisar áreas de banho permitidas na orla do Recife e Jaboatão.
A recorrência de incidentes graves na costa pernambucana forçou uma reação imediata das autoridades estaduais. Após dois ataques de tubarão registrados em um intervalo de menos de 48 horas na Região Metropolitana do Recife, o Governo de Pernambuco anunciou a retomada oficial do programa de monitoramento científico desses animais. A decisão marca o fim de um hiato de 11 anos sem observação sistemática e captura para fins de pesquisa, uma lacuna que especialistas apontam como um dos fatores que dificultam a prevenção e a compreensão da dinâmica dos predadores na orla urbana do estado.
Os episódios recentes chocaram a população pela proximidade e gravidade. Na última segunda-feira (1º), a estudante de Direito Marcela Vitória, de 19 anos, sofreu um ataque na tradicional Praia de Boa Viagem, na capital. A jovem, que estava em águas pouco profundas, teve uma das pernas amputada após ser mordida por um tubarão da espécie tigre. Apenas um dia antes, no domingo, um menino de 11 anos foi vítima de um ataque similar na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, perdendo o membro inferior após o encontro com um tubarão-cabeça-chata. Ambos seguem internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), com quadros estáveis, mas sob monitoramento rigoroso após as cirurgias de emergência.
O retorno do monitoramento, viabilizado por meio do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), prevê a captura de exemplares, a instalação de transmissores e a soltura posterior em alto-mar. O objetivo é mapear as rotas de deslocamento e entender quais áreas da costa são mais frequentadas por cada espécie. Para a bióloga Maria Cecília Porto, a identificação do uso do habitat é crucial para formular políticas de segurança pública mais eficazes. Atualmente, Pernambuco possui um decreto que proíbe esportes náuticos em uma extensão de 33 quilômetros, mas a proibição total de banho de mar alcança apenas um trecho de 2 quilômetros, permanecendo o sistema de placas de alerta na maior parte da orla.
Fatores sazonais e ambientais contribuem para o aumento do risco nesta época do ano. O período de chuvas frequentes traz águas mais turvas, o que prejudica a visibilidade tanto para banhistas quanto para os animais, que podem confundir humanos com suas presas naturais. Além disso, a combinação de ventos fortes e a lua de maré cheia faz com que o nível do mar suba consideravelmente, permitindo que os tubarões se aproximem ainda mais da faixa de areia. A configuração geográfica da região, marcada por uma vala profunda próxima à costa e o impacto ambiental da construção do Porto de Suape nas últimas décadas, também é citada historicamente como um agravante para a concentração de tubarões-cabeça-chata e tubarões-tigre na área.
Com os novos dados científicos que o programa pretende gerar, o governo estadual cogita a revisão dos decretos de segurança e a ampliação das zonas de restrição para banho. Denise Alves, secretária-executiva do Cemit, ressaltou que a gestão pública precisa de embasamento técnico para reavaliar os instrumentos de controle. Enquanto o monitoramento não entra plenamente em operação, o Corpo de Bombeiros e o Grupamento de Bombeiros Marítimos (GBMar) reforçaram a vigilância na areia, utilizando motos aquáticas e sinalizando o perigo com novas bandeiras vermelhas. A orientação para moradores e turistas é de cautela máxima: deve-se evitar entrar no mar em dias de águas turvas, durante as marés altas ou em locais onde já existem avisos de perigo, priorizando a segurança pessoal acima de qualquer atividade recreativa.






