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Lua cheia e ataques de tubarão: entenda a conexão científica por trás do fenômeno

Estudos científicos apontam correlação entre fases lunares e incidentes no mar; entenda por que o fenômeno ocorre e como se proteger.

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Redação 360 Notícia
2 de junho de 2026 às 15:003 min
Lua cheia e ataques de tubarão: entenda a conexão científica por trás do fenômeno
Foto: Reprodução
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Estudos indicam que a Lua Cheia aumenta as chances de incidentes com tubarões, mas o motivo não é a agressividade dos animais. Saiba como o ciclo lunar altera as marés e a turbidez da água, facilitando a aproximação de predadores em áreas de banho.

A ocorrência de incidentes envolvendo tubarões em praias brasileiras, especialmente no litoral de Pernambuco, frequentemente levanta questionamentos sobre a influência de fatores externos no comportamento desses predadores. Recentemente, dois ataques registrados na Praia de Boa Viagem, no Recife, em um curto intervalo de tempo, reacenderam o debate sobre a relação entre as fases da Lua e o risco para os banhistas. Embora o senso comum possa sugerir que os animais se tornam mais agressivos durante a Lua Cheia, pesquisas científicas de grande escala oferecem uma explicação mais complexa e fundamentada na oceanografia e na ecologia comportamental, descartando mitos e focando nas alterações do ambiente marinho.

Um dos estudos mais robustos sobre o tema, publicado na revista científica Frontiers in Marine Science, analisou dados coletados ao longo de quase cinco décadas pelo International Shark Attack File (ISAF). Os pesquisadores da Universidade do Estado da Louisiana e da Universidade da Flórida identificaram uma correlação estatística clara: o número de ataques de tubarão em nível global tende a ser superior à média durante os períodos de maior luminosidade lunar. Por outro lado, as fases de Lua Nova ou com menor iluminação apresentaram registros significativamente abaixo do esperado. No entanto, os cientistas ressaltam que a maioria desses incidentes ocorre durante o dia, o que invalida a hipótese de que a luz noturna do luar facilitaria diretamente a caça no momento do ataque.

A chave para entender esse fenômeno reside no chamado "efeito lunar". A Lua atua como um maestro das marés, e é justamente nessa movimentação das águas que reside o perigo. No litoral do Recife, por exemplo, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) monitora com rigor as marés de sizígia. Essas marés ocorrem quando a Lua e o Sol estão alinhados (nas fases de Lua Cheia e Lua Nova), potencializando a força gravitacional sobre os oceanos. O resultado são marés extremamente altas e baixas. Em Pernambuco, a existência de um canal profundo próximo à areia permite que, durante a maré cheia de sizígia, as águas cubram os bancos de areia com maior profundidade, facilitando o deslocamento de grandes espécies, como o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata, para áreas onde os banhistas normalmente circulam.

Além da profundidade, a turbidez da água é um fator determinante agravado pelos ciclos lunares. Marés mais intensas revolvem o sedimento do fundo oceânico, tornando a água mais turva e reduzindo drasticamente a visibilidade subaquática. Nestas condições, os tubarões podem confundir movimentos de seres humanos com suas presas naturais, resultando nas chamadas "mordidas investigativas". Nesses casos, o animal utiliza a boca para identificar o objeto, o que pode causar ferimentos graves em humanos. Portanto, a Lua não altera o "humor" do tubarão, mas modifica a infraestrutura do seu habitat, aproximando o predador do ambiente frequentado por banhistas e dificultando a distinção visual das presas.

O impacto lunar se estende a toda a biodiversidade marinha. Especialistas como o biólogo Roberto Leonan M. Novaes, da Fiocruz, pontuam que muitas espécies dependem desse ciclo para sobreviver. Corais sincronizam sua desova com a iluminação lunar, e tartarugas-marinhas utilizam o reflexo do luar na água para se orientar até o mar após o nascimento. A ciência moderna alerta, contudo, que o equilíbrio natural esse "relógio biológico" está sendo ameaçado pela poluição luminosa das cidades costeiras. Luzes artificiais confundem filhotes de tartarugas e desregulam o comportamento de peixes e mamíferos, sobrepondo-se ao ritmo natural imposto pelo satélite terrestre há milênios.

Diante desse cenário, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente para evitar tragédias. Autoridades de segurança e especialistas em biologia marinha reforçam recomendações fundamentais, especialmente em Pernambuco: evitar o banho de mar em períodos de maré alta durante as luas cheia e nova; não entrar na água se ela estiver turva; respeitar rigorosamente as placas de sinalização e os alertas dos guarda-vidas; e evitar áreas próximas a canais profundos e embocaduras de rios. Compreender que a Lua cheia é um fator de risco ambiental, e não um gatilho de agressividade animal, é essencial para uma convivência mais segura com os ecossistemas marinhos brasileiros.

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