Gestão da Cedae ignorou alertas sobre Banco Master e causou prejuízo de R$ 222 milhões
Relatório aponta que cúpula da estatal ignorou riscos de quebra e omitiu informações de conselhos para manter aplicações de R$ 200 milhões.

Sindicância interna da Cedae aponta que a diretoria financeira ignorou alertas técnicos e manteve investimentos no Banco Master, resultando em prejuízo de R$ 222 milhões. Alerj prepara CPI para investigar aplicações que somam R$ 3 bilhões.
Uma investigação interna conduzida pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) revelou um cenário alarmante de negligência administrativa e prejuízos financeiros que atingem a casa dos R$ 222 milhões. De acordo com o relatório final da sindicância, a Diretoria Financeira da estatal teria ignorado sistematicamente alertas técnicos que recomendavam a retirada imediata de recursos aplicados no Banco Master. O documento aponta que, mesmo diante de sinais claros de deterioração da saúde financeira da instituição bancária, a cúpula da Cedae optou por manter os investimentos, resultando em uma perda patrimonial severa para a companhia pública fluminense.
O epicentro da crise reside na gestão de Antonio Carlos dos Santos, ex-diretor financeiro da estatal e figura considerada de extrema influência na administração do governador Cláudio Castro. Segundo os registros da sindicância, em setembro de 2025, o corpo técnico da Cedae emitiu um parecer contundente sugerindo o resgate total de aproximadamente R$ 200 milhões aplicados em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Master. No entanto, a diretoria teria subestimado o risco, autorizando apenas saques parciais e mantendo o grosso do capital exposto a uma instituição que, pouco tempo depois, veria sua classificação de risco (rating) despencar de BB- para CC, um patamar que indica alto risco de inadimplência.
A gravidade dos fatos se estende para além da omissão administrativa. A sindicância sugere que houve uma flexibilização deliberada nos critérios internos de análise de risco da Cedae para beneficiar a manutenção dos depósitos no Banco Master. Relatos indicam que contatos diretos entre representantes do banco, incluindo menções ao banqueiro Daniel Vorcaro, e a diretoria da estatal influenciaram a tomada de decisões. Em um episódio específico citado no relatório, uma ordem técnica para resgatar R$ 44 milhões chegou a ser emitida, mas foi prontamente cancelada por assessores ligados diretamente à diretoria financeira, sem uma justificativa técnica plausível que sustentasse a permanência dos valores no banco.
Para o setor público do Rio de Janeiro, o caso ganha contornos de escândalo sistêmico, uma vez que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) já se mobiliza para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O objetivo é investigar não apenas as perdas da Cedae, mas também as aplicações do Rioprevidência na mesma instituição financeira, que totalizam um montante próximo de R$ 3 bilhões. O relatório da sindicância é enfático ao afirmar que informações cruciais sobre o risco de quebra e a volatilidade do banco foram omitidas do Conselho de Administração e do Comitê de Auditoria da Cedae, órgãos que deveriam atuar como fiscalizadores das movimentações financeiras da empresa.
Diante das evidências colhidas, o atual presidente da Cedae, Rafael Rolim, tomou providências para que o caso não fique restrito ao âmbito administrativo interno. O relatório foi encaminhado a órgãos de controle externos, como o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A expectativa agora é que essas instituições aprofundem as investigações para identificar eventuais crimes de responsabilidade, improbidade administrativa ou até mesmo ilícitos financeiros. Para o contribuinte fluminense, o episódio reforça a necessidade de maior transparência e rigor na gestão de fundos públicos, especialmente em estatais que operam serviços essenciais e movimentam cifras bilionárias no mercado de capitais.






