Fé e arte: Fiéis confeccionam tapetes de Corpus Christi no Sul do Rio e Costa Verde
Cidades do Sul Fluminense e Costa Verde mantêm viva a tradição da montagem de tapetes coloridos em celebração à Eucaristia.

A celebração de Corpus Christi move fiéis no Sul Fluminense e na Costa Verde com a tradicional confecção de tapetes coloridos. O trabalho coletivo une fé, arte e reciclagem em ruas transformadas pelas comunidades locais em honra à Eucaristia.
A celebração de Corpus Christi, um dos momentos mais solenes e visuais do calendário católico, mobilizou milhares de fiéis em diversas cidades do Sul Fluminense e da Costa Verde do Rio de Janeiro nesta quinta-feira. Desde as primeiras horas da manhã, comunidades inteiras se reuniram para dar continuidade a uma das tradições religiosas mais marcantes do Brasil: a confecção dos tapetes coloridos que adornam as vias públicas. O trabalho coletivo, que une técnica artística e devoção espiritual, transformou ruas comuns em verdadeiras galerias de arte a céu aberto, preparando o trajeto para a passagem das procissões que ocorrem ao longo do dia.
A tradição dos tapetes no Brasil remonta ao período colonial, tendo sido trazida pelos imigrantes portugueses. Na região Sul do Rio e na Costa Verde, essa prática ganhou contornos próprios, com cada paróquia imprimindo sua identidade nas obras de arte efêmeras. Na Igreja Católica, a data de Corpus Christi, que ocorre 60 dias após a Páscoa, é dedicada especificamente à celebração do mistério da Eucaristia — o sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo. A montagem dos tapetes não é apenas um adorno estético; para os fiéis, a prática simboliza a preparação de um caminho digno e honroso para a passagem da Hóstia Sagrada, carregada pelo sacerdote durante a cerimônia pública pelas ruas.
Os materiais utilizados na confecção dos painéis são variados e refletem a criatividade e o espírito de reaproveitamento das comunidades locais. Embora a serragem colorida e o sal sejam os elementos mais tradicionais, é comum encontrar produções que utilizam borra de café, areia de diferentes granulações, cascas de ovos trituradas, flores frescas e materiais recicláveis, como tampinhas e retalhos de tecido. Os desenhos retratam cenas bíblicas, o cálice sagrado, a paz mundial, figuras de santos e mensagens de cunho social, exigindo horas de planejamento e execução manual minuciosa. Na Comunidade São Vicente Ferrer, em Fumaça, o esforço conjunto evidenciou o fortalecimento dos laços comunitários e a persistência da fé através das gerações.
Para o leitor brasileiro, o Corpus Christi representa uma das poucas datas onde o espaço público é ressignificado de forma tão direta pela população civil. Além do aspecto religioso, a data movimenta o turismo cultural nessas regiões, atraindo visitantes curiosos para observar a complexidade das obras antes que elas sejam desfeitas pela passagem da procissão e pelo tráfego de veículos. O simbolismo da prática remete biblicamente à entrada de Jesus em Jerusalém, ocasião em que o povo forrou o chão com ramos de oliveira e mantos. Replicar esse gesto séculos depois, em asfalto ou paralelepípedo, é uma forma de reafirmar a identidade cristã e a união entre os moradores, que muitas vezes passam a noite em vigília trabalhando nos desenhos.
Com a conclusão da montagem nas principais vias do Sul Fluminense e da Costa Verde, as celebrações seguem agora para a fase litúrgica, com missas solenes e as tradicionais procissões. Após o evento, as prefeituras locais costumam realizar mutirões de limpeza para garantir que as vias sejam liberadas para o trânsito sem deixar resíduos nos bueiros ou no pavimento. O legado de cada edição, entretanto, permanece na memória fotográfica das cidades e na renovação dos votos de cooperação entre os participantes. O registro dessas manifestações populares reforça a importância de preservar o patrimônio imaterial brasileiro em tempos de modernidade acelerada.






