Contaminação por mercúrio atinge níveis alarmantes em terras indígenas do Amapá
Pesquisa do Instituto Iepé aponta que metade dos indígenas avaliados possui níveis do metal acima do limite seguro; garimpos ilegais são a causa central.

Um estudo conjunto entre o Instituto Iepé e o Dsei revelou que metade dos indígenas testados em Oiapoque, no Amapá, possui níveis de mercúrio acima do limite da OMS. O uso do metal no garimpo ilegal contamina peixes, base alimentar das etnias Karipuna, Palikur e Galibi, gerando riscos neurológicos graves.
Um levantamento científico inédito, realizado pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) em colaboração com o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Amapá e Norte do Pará, acendeu um alerta crítico sobre a saúde pública na região amazônica. A pesquisa revelou que as populações indígenas residentes no município de Oiapoque, no extremo norte do Amapá, estão enfrentando níveis alarmantes de contaminação por mercúrio. O estudo, cujas coletas foram iniciadas no final de 2024, analisou 192 amostras de cabelo de integrantes das etnias Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali'na, evidenciando uma realidade sombria para essas comunidades tradicionais que vivem em áreas de preservação.
Os dados são extremamente preocupantes: aproximadamente 50% dos indivíduos testados apresentaram concentrações de mercúrio iguais ou superiores a 6,0 mg/kg. Para se ter uma dimensão da gravidade, este índice é o limite máximo tolerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A exposição prolongada a esse metal pesado está diretamente associada a danos severos e muitas vezes irreversíveis ao sistema nervoso central. Entre os sintomas e complicações mais comuns da intoxicação por mercúrio, destacam-se tremores involuntários, episódios crônicos de insônia, perda progressiva de memória, dificuldades de coordenação motora e sérios problemas durante o período gestacional, afetando o desenvolvimento cognitivo e físico dos bebês.
A origem dessa contaminação remete à atividade predatória do garimpo ilegal, que persiste nas imediações das terras indígenas amapaenses. O mercúrio metálico é amplamente utilizado pelos garimpeiros para separar o ouro de outros sedimentos; durante o processo, o metal é despejado ou evaporado nos rios, onde sofre um processo químico chamado metilação, transformando-se em metilmercúrio. Esta substância é absorvida por microrganismos e entra na cadeia alimentar através dos peixes. Como os peixes são a principal fonte de proteína e base da dieta das comunidades de Oiapoque, o consumo frequente desses animais resulta em uma bioacumulação de mercúrio no organismo humano, o que explica por que os índices mais elevados foram detectados em pessoas com mais de 50 anos, que acumularam o metal por décadas.
A análise detalhada por gênero revelou disparidades importantes, embora ambos os grupos estejam em risco. Os homens apresentaram níveis elevados de mercúrio em mais de 60% dos casos avaliados. Já entre as mulheres, o índice de contaminação acima do limite seguro ficou em 38,37%. No entanto, o dado que mais causa apreensão entre os profissionais de saúde é o de mulheres em idade fértil: 31,37% delas possuem concentrações perigosas de mercúrio no sangue. Essa estatística representa uma ameaça direta às futuras gerações, pois o mercúrio atravessa a barreira placentária, podendo causar malformações fetais, atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor e até mesmo o óbito do feto ainda no útero.
Os resultados foram apresentados formalmente durante a Assembleia da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), gerando comoção e pedidos urgentes por providências governamentais. Janina Karipuna, presidente da organização, enfatizou que o problema transcende os limites das áreas de garimpo, afetando de forma sistêmica toda a vida nas comunidades. Para o leitor brasileiro, este caso serve como um lembrete de que a contaminação ambiental na Amazônia não é um evento isolado; levantamentos anteriores já detectaram presença de mercúrio em pescados comercializados livremente em feiras e mercados urbanos da região Norte. Diante deste cenário, o Iepé e lideranças locais defendem o fortalecimento da fiscalização ambiental contra o garimpo ilegal, a ampliação dos testes toxicológicos na população e a implementação de políticas de segurança alimentar que garantam o acesso a fontes nutricionais seguras para esses povos protegidos constitucionalmente.





