Avanço tecnológico e digitalização transformam o conceito de competência no trabalho
Especialista do Senac discute a reconfiguração de competências profissionais diante do avanço da Inteligência Artificial e da automação global.

Executivo do Senac São Paulo analisa os impactos da IA e da automação no mercado global. Relatório aponta criação neta de 78 milhões de empregos até 2030, exigindo novas competências dos profissionais.
A rápida evolução tecnológica, impulsionada especialmente pela Inteligência Artificial (IA), tem provocado uma profunda reflexão sobre o futuro do emprego e a relação entre humanos e máquinas. Em uma análise detalhada sobre o atual cenário de digitalização, João Carlos Goia, Gerente do Atendimento Corporativo do Senac São Paulo, estabelece um paralelo curioso entre as previsões futuristas do passado e a realidade contemporânea. Segundo o executivo, embora o imaginário popular de décadas passadas — simbolizado por animações como "The Jetsons" — tenha antecipado o conceito de automação, o formato real das inovações se manifestou de maneira diferente, impactando de forma decisiva a estrutura do mercado de trabalho global e a necessidade de novas competências profissionais.
Historicamente, a visão de futuro projetada nos anos 60 e 70 focava em carros voadores e robôs humanoides que realizariam todas as tarefas domésticas. Na prática, chegamos a meados da década de 2020 com avanços que priorizaram a conectividade, a miniaturização de dispositivos e a automação intelectual. Goia observa que, enquanto o robô fisicamente idêntico ao homem não se tornou onipresente, as máquinas e algoritmos passaram a substituir a força de trabalho humana em tarefas repetitivas e, mais recentemente, em processos cognitivos complexos. Essa transição marca o fim de uma era onde a execução era o principal valor do trabalhador, dando lugar a uma fase onde a gestão estratégica da tecnologia torna-se o diferencial competitivo.
Dados do relatório "Future of Jobs 2025", elaborado pelo Fórum Econômico Mundial em Davos, trazem números que ajudam a compreender a escala dessa transformação. A projeção para 2030 indica que, embora 92 milhões de postos de trabalho possam desaparecer devido à automação, a tecnologia será responsável pela criação de aproximadamente 170 milhões de novas ocupações. Esse saldo positivo de cerca de 78 milhões de vagas globais sugere que o receio generalizado da substituição humana ainda reside na falta de compreensão sobre como as novas funções serão estruturadas. A reconfiguração do trabalho exige que o profissional atual saia do estado de "incompetência inconsciente" — onde ele sequer percebe o que não sabe — para uma postura de aprendizado contínuo e adaptabilidade.
Nesse novo paradigma, o conceito de competência foi redefinido. O executivo do Senac São Paulo ressalta que o tradicional "saber fazer" está perdendo espaço para o "saber direcionar". As habilidades mais valorizadas agora incluem o pensamento crítico ampliado, a curadoria estratégica de informações e a ética digital. O profissional do futuro precisa atuar como um orquestrador de ferramentas de IA, sendo capaz de filtrar resultados e dar sentido estratégico aos dados processados por algoritmos. A alfabetização em inteligência artificial, portanto, deixa de ser um diferencial técnico para tornar-se uma necessidade básica de sobrevivência profissional, comparável à alfabetização tradicional.
Para o mercado brasileiro, essas mudanças impõem desafios adicionais de capacitação e atualização constante. O ciclo de vida das habilidades está se tornando cada vez mais curto, exigindo o que especialistas chamam de "lifelong learning", ou aprendizado ao longo da vida. Não se trata apenas de dominar um software novo, mas de desenvolver a capacidade de aprender, desaprender e reaprender de forma cíclica. Diante desse cenário, instituições como o Senac São Paulo têm investido em soluções corporativas customizadas para preparar empresas e colaboradores para essa realidade, focando na humanização do uso tecnológico. O futuro real, longe da ficção científica, demanda humildade intelectual, coragem para encarar as mudanças e a consciência de que a verdadeira vantagem humana reside na capacidade incessante de evoluir junto com as máquinas.





